About nas Eleições: Dani Monteiro defende um Carnaval de Rua popular, territorial e democrático

Dani Monteiro, deputada estadual pelo Rio de Janeiro, busca o terceiro mandato na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro nas eleições de 2026. Cria do Morro de São Carlos, onde nasceu e cresceu, ela também foi assessora de Marielle Franco e construiu sua trajetória política a partir da defesa dos direitos das populações periféricas. Em seu segundo mandato, preside a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj desde 2021. Em entrevista a About, Dani fala sobre Carnaval de Rua, cultura, direitos humanos e desigualdades territoriais. Para a parlamentar, ocupar as ruas com cultura também é exercer o direito à cidade.
Dani Monteiro também defende a criação de uma Política Estadual Permanente de Fortalecimento do Carnaval Popular e de Rua, com financiamento descentralizado, infraestrutura e participação de quem constrói a festa. Entre as medidas, estão pontos gratuitos de hidratação, atendimento de saúde, mobilidade e segurança sem criminalização das manifestações culturais. A deputada também relaciona Carnaval e justiça climática, diante do avanço das ondas de calor e eventos extremos. Na entrevista, ela fala ainda sobre cultura periférica, trabalho, cuidado, juventude negra e o direito de produzir cultura nos próprios territórios.

1. Você nasceu e cresceu no Morro de São Carlos, foi assessora de Marielle Franco e está no segundo mandato como deputada estadual. Como essa trajetória, construída a partir de um território de favela, influencia as prioridades que você leva para a Alerj?
Influencia absolutamente tudo. Eu costumo repetir sempre que “a cabeça pensa onde os pés pisam”. Eu sou cria do Morro de São Carlos e sei, a partir da minha própria trajetória, o que significa crescer num território onde muitas vezes o Estado chega pela ausência de direitos ou pela presença da repressão. E ter trabalhado com a Marielle também foi fundamental para compreender que a política precisa partir da vida concreta das pessoas e dos territórios.
Então, quando eu chego à Alerj, eu não deixo o São Carlos do lado de fora. Ele entra comigo. Entram comigo as mulheres, a juventude negra, os trabalhadores, os artistas, as mães, os moradores que enfrentam falta d’água, transporte ruim, violência, dificuldade de acessar educação, cultura e oportunidades.
Eu aprendi que representar esses territórios não é falar por eles. É criar condições para que eles próprios sejam ouvidos e tenham poder de decisão. É isso que orienta o nosso mandato: transformar demandas que historicamente foram invisibilizadas em políticas públicas, orçamento e direitos.
2. Você está à frente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj desde 2021. Quais são hoje os principais desafios para garantir direitos nos territórios de favela e periferia do Rio?
O primeiro desafio é fazer o poder público compreender que direitos humanos não são uma abstração. Direitos humanos são água chegando na torneira, saneamento, escola funcionando, acesso à saúde, transporte, moradia digna, trabalho, cultura, lazer e o direito de voltar vivo para casa.
Nas favelas e periferias, ainda convivemos com uma enorme desigualdade territorial. Há uma combinação de ausência de políticas públicas com uma presença extremamente violenta do Estado. E isso atinge de maneira muito particular a população negra e a juventude.
À frente da Comissão de Direitos Humanos, uma preocupação nossa é justamente romper com essa lógica. A Comissão precisa estar dentro da Alerj, fiscalizando e legislando, mas também precisa estar na rua, nos territórios, ouvindo denúncias, acolhendo famílias e cobrando respostas do Estado. Fazendo política com 1 pé na instituição e mil pés fora dela.
E hoje há um desafio que se torna cada vez mais urgente: incorporar a justiça climática a essa agenda. Quando falta água, quando uma chuva alaga uma comunidade ou quando uma onda de calor torna a vida insuportável, sabemos quem sofre primeiro e quem sofre mais.
3. A gente costuma dizer que o Carnaval é muito mais do que uma festa: ele é uma forma de ocupar a cidade, fortalecer identidades e movimentar a economia. Como você enxerga essa relação entre Carnaval, direito à cidade e direitos humanos?
O Carnaval é uma das maiores expressões do direito à cidade. Quando a população ocupa as ruas para cantar, dançar, brincar e produzir cultura, ela está dizendo também que a cidade pertence a quem vive nela.
E isso tem uma dimensão histórica muito forte no Rio de Janeiro, porque o Carnaval é profundamente marcado pela contribuição da população negra, dos trabalhadores, das comunidades, dos subúrbios e das favelas. São essas populações que construíram grande parte daquilo que hoje o mundo reconhece como cultura carioca.
Por isso, não podemos reduzir o Carnaval a um grande evento turístico ou econômico. Ele movimenta a economia, evidentemente, e gera renda para milhares de pessoas. Mas é também memória, pertencimento, encontro, liberdade e ocupação democrática do espaço público.
Defender o Carnaval popular é defender que a rua não seja privatizada e que o direito de ocupar a cidade não seja um privilégio de quem pode pagar. O direito à cultura, ao lazer e à cidade também é um direito humano.
4. Em janeiro deste ano, você e o deputado Pastor Henrique Vieira solicitaram a instalação de pontos de hidratação e distribuição de água durante o Carnaval diante das ondas de calor. O episódio mostra como questões de infraestrutura e clima impactam diretamente quem ocupa as ruas. O que o Estado precisa fazer para preparar o Carnaval diante dos eventos climáticos extremos?
A primeira coisa é compreender que a crise climática já chegou. Ela não é uma discussão sobre o futuro. As ondas de calor extremo, as chuvas cada vez mais intensas e os eventos climáticos que estamos vivendo exigem outra forma de planejar os grandes eventos.
Foi nesse sentido que eu e o deputado Pastor Henrique Vieira cobramos pontos gratuitos de hidratação durante o Carnaval. Água em uma situação de calor extremo não pode ser tratada como mercadoria ou favor. É questão de saúde e é direito humano.
Precisamos de protocolos permanentes para eventos climáticos extremos: pontos gratuitos de água, áreas de sombra e descanso, postos de atendimento em saúde, banheiros adequados, planejamento de transporte, rotas de emergência, informação acessível à população e atenção especial aos trabalhadores que passam muitas horas expostos ao calor.
E é preciso planejamento. Não dá para esperar uma onda de calor chegar para começar a improvisar. Justiça climática também significa garantir que todo mundo possa ocupar a cidade com segurança.
5. O Carnaval de rua acontece em diferentes territórios do estado, mas as condições de infraestrutura, segurança, transporte e acesso a recursos são muito desiguais. Como uma política estadual de Carnaval pode considerar essas diferenças territoriais?
Ela precisa começar reconhecendo que o território importa. Não podemos tratar um bloco que acontece no Centro do Rio, um bloco da Baixada Fluminense e uma manifestação carnavalesca dentro de uma favela como se todos partissem das mesmas condições.
Alguns territórios já possuem infraestrutura, transporte, iluminação, equipamentos culturais e maior capacidade de acessar patrocínio. Outros precisam organizar uma manifestação cultural enfrentando falta de banheiro, água, transporte, estrutura e até dificuldades para conseguir autorização.
Por isso eu defendo uma política estadual de Carnaval que tenha critérios territoriais para distribuição de recursos. Isso significa descentralizar os editais, simplificar o acesso para os pequenos blocos e coletivos, garantir estrutura pública e levar investimento para onde historicamente ele não chegou.
O Estado precisa perguntar menos “qual evento consegue apresentar a melhor burocracia?” e mais “qual território precisa do investimento público para garantir que essa manifestação continue existindo?”.
Política cultural também é política de redução das desigualdades territoriais.
6. Seu mandato tem uma atuação forte na defesa dos direitos das populações periféricas. Quando um bloco, baile ou manifestação cultural ocupa uma rua de favela, quais cuidados o poder público deveria ter para garantir segurança sem transformar a presença do Estado em repressão?
O primeiro cuidado é não olhar para uma manifestação cultural de favela como uma ameaça. Esse é o ponto de partida.
Infelizmente, ainda existe uma lógica em que um evento cultural realizado em determinadas regiões da cidade é tratado como cultura, enquanto um baile, uma roda de rima ou uma festa em uma favela rapidamente vira questão de polícia. Isso é racismo estrutural.
Segurança precisa existir, mas ela precisa ser construída junto com quem organiza o evento e com o território. É preciso planejamento de circulação, atendimento de saúde, proteção das crianças e dos trabalhadores, mediação de conflitos e garantia de que as pessoas possam chegar e sair com segurança.
O que não podemos aceitar é que a presença do Estado seja sinônimo de abordagem abusiva, revista indiscriminada, interrupção arbitrária da atividade cultural ou criminalização de artistas e moradores. Hip-hop, funk, samba, blocos e arte de rua são expressões legítimas da identidade e da economia dos territórios e precisam ser tratados pelas políticas de cultura e de direitos, e não como caso de polícia.
7. Você tem uma trajetória ligada à defesa do direito à cidade. Como garantir que a população periférica tenha não apenas acesso aos grandes equipamentos culturais, mas também o direito de produzir cultura e ocupar os espaços públicos de seus próprios territórios?
Esse é um ponto muito importante. Democratizar a cultura não significa apenas levar uma pessoa da favela para assistir a um espetáculo no Centro ou na Zona Sul. Isso é importante, claro, mas é insuficiente.
A favela não é apenas consumidora de cultura. Ela produz cultura todos os dias. Não por acaso, mote da nossa campanha é “a favela no centro”.
É dali que surgem artistas, ritmos, danças, estéticas e linguagens que depois muitas vezes são apropriadas pelo mercado e ganham o mundo. O problema é que os recursos nem sempre voltam para os territórios que produziram essa riqueza.
Então precisamos inverter essa lógica. Precisamos financiar rodas culturais, batalhas de rima, bailes, grupos de samba, companhias de dança, coletivos audiovisuais e tantas outras iniciativas nos próprios territórios.
E isso exige espaço público, equipamento, financiamento, infraestrutura e liberdade para produzir. Direito à cidade também é o direito de permanecer no seu território e transformá-lo num lugar onde seja possível viver, criar, trabalhar, brincar e produzir cultura.
8. No início deste ano, você apresentou na Alerj um projeto para criar um programa estadual de apoio às mães integrantes da cultura hip-hop. O que essa proposta revela sobre a necessidade de políticas culturais que considerem também as condições de trabalho e cuidado das pessoas que produzem cultura?
Esse projeto nasce de uma pergunta muito simples: quantas mulheres deixam de participar de uma atividade cultural, de trabalhar ou de continuar uma trajetória artística porque não têm com quem deixar seus filhos?
Quando a política cultural ignora isso, ela reproduz desigualdade.
Uma mãe que é MC, produtora, DJ, grafiteira, dançarina ou trabalhadora da cultura continua sendo mãe enquanto trabalha. Parece óbvio, mas nossas políticas públicas muitas vezes funcionam como se essas duas dimensões da vida estivessem separadas.
O programa de apoio às mães integrantes da cultura hip-hop procura justamente reconhecer essas mulheres como artistas, produtoras culturais, trabalhadoras e também público, enfrentando obstáculos como a ausência de espaços adequados para crianças e a falta de apoio logístico.
Essa proposta revela algo maior: política cultural também precisa ser política de cuidado. Se queremos mulheres ocupando os espaços de cultura, precisamos garantir condições materiais para que elas estejam ali.
9. O hip-hop, o samba, os blocos de rua e outras manifestações culturais periféricas movimentam uma cadeia de trabalhadores que vai muito além dos artistas. Como o Estado pode reconhecer e fortalecer esses profissionais, inclusive com políticas de renda e proteção social?
Quando uma roda cultural acontece, não trabalha apenas quem está com o microfone na mão. Tem quem produz, quem monta o som, quem fotografa, quem vende comida, quem faz figurino, quem trabalha com iluminação, transporte, comunicação, segurança e limpeza.
O Carnaval funciona da mesma forma. Existe uma enorme cadeia econômica que muitas vezes permanece invisível.
O primeiro passo é reconhecer essas pessoas como trabalhadores e trabalhadoras da cultura. A partir daí, podemos pensar políticas permanentes de fomento, formação profissional, crédito, proteção social, editais simplificados e mecanismos que garantam renda também para quem está nos bastidores.
E precisamos superar uma política cultural baseada apenas em grandes eventos. Cultura acontece o ano inteiro.
Quando o Estado investe numa roda cultural, num bloco ou numa manifestação periférica, não está apenas financiando entretenimento. Está movimentando uma economia local, gerando trabalho e renda e fortalecendo vínculos comunitários. Cultura é direito, mas cultura também é trabalho.
10. Muitas vezes, manifestações culturais das favelas ganham visibilidade quando chegam aos grandes eventos, mas continuam enfrentando dificuldades para acessar financiamento e infraestrutura em seus próprios territórios. Como descentralizar os recursos públicos de cultura?
Precisamos mudar os critérios de distribuição do dinheiro público.
Se o Estado simplesmente lança um edital e diz que todos podem concorrer igualmente, muitas vezes ele reproduz uma desigualdade que já existe. Quem tem equipe técnica, experiência em elaboração de projetos e estrutura institucional larga na frente.
Por isso, defendo critérios territoriais nos editais, recursos específicos para favelas, periferias, Baixada e interior, processos de inscrição mais simples e apoio técnico para os pequenos coletivos.
Também precisamos de transparência. É importante saber onde o dinheiro da cultura está chegando: quais municípios, quais bairros, quais grupos sociais e quais tipos de iniciativa estão recebendo esses investimentos.
E existe outra questão fundamental: financiar continuidade. Uma roda cultural não pode depender de ganhar um edital a cada três anos para saber se continuará existindo. Descentralizar recursos é descentralizar poder.
11. O debate sobre segurança pública costuma aparecer com muita força quando falamos de ocupação das ruas. Como construir uma política de segurança que reconheça a cultura e o lazer como direitos, especialmente para a população negra, jovem e periférica?
Nós precisamos romper com a ideia de que juventude negra reunida no espaço público representa automaticamente um problema de segurança.
Um grupo de jovens reunido numa batalha de rima está exercendo o direito à cultura. Jovens num baile estão exercendo o direito ao lazer. Um bloco ocupando uma rua está exercendo o direito à cidade.
Segurança pública deveria servir para garantir que essas pessoas exerçam esses direitos em segurança, e não para impedi-las de exercê-los.
Isso significa formação antirracista dos agentes públicos, protocolos claros de atuação, diálogo prévio com organizadores e comunidades, mecanismos de responsabilização em casos de abuso e investimento em prevenção.
Mas significa também compreender segurança de maneira mais ampla. Uma juventude que tem escola, trabalho, renda, esporte, cultura e perspectiva de futuro está mais protegida. A juventude negra e periférica quer viver. Quer educação e cultura. Quer menos bala e mais baile.
12. O Rio vive um momento em que o debate sobre segurança e crime organizado ocupa grande espaço na disputa eleitoral. Como evitar que esse debate resulte em políticas que criminalizem territórios inteiros e restrinjam ainda mais o direito à cidade e à cultura?
Primeiro, nós não podemos fugir do debate sobre segurança pública. A população das favelas também quer segurança. Aliás, é justamente essa população que mais sofre com a violência.
O que precisamos combater é a falsa ideia de que enfrentar o crime organizado significa transformar territórios inteiros em territórios inimigos.
Crime organizado se enfrenta com inteligência, investigação, controle das armas, investigação dos fluxos financeiros, enfrentamento das organizações criminosas e das suas conexões econômicas e políticas.
Não se combate crime organizado criminalizando o morador, o trabalhador, o jovem que está voltando da escola ou o artista que está realizando um baile.
E precisamos disputar essa ideia durante o processo eleitoral, porque o medo muitas vezes é utilizado para justificar políticas que já sabemos que fracassaram. Favela não é sinônimo de crime. Periferia não é território inimigo.
A política de segurança precisa distinguir quem pratica o crime de milhões de pessoas que vivem, trabalham, estudam, produzem cultura e constroem todos os dias o estado do Rio de Janeiro.
13. Você está buscando um novo mandato na Alerj com uma agenda que reúne direitos humanos, mulheres, cultura, educação, trabalho e justiça climática. Se eleita, qual dessas frentes você pretende priorizar e que proposta concreta gostaria de aprovar primeiro?
Se eu tiver que resumir todas essas agendas em uma prioridade, eu diria: garantir direitos nos territórios.
Porque quando falamos de uma mulher negra na periferia, não dá para separar cultura de trabalho, trabalho de cuidado, moradia de saneamento ou segurança pública de direitos humanos.
E a justiça climática vai ocupar um espaço cada vez maior nessa agenda. Falta d’água, calor extremo, enchentes, precariedade do saneamento e insegurança alimentar não atingem todo mundo da mesma maneira. Existe raça, gênero, renda e território nessa desigualdade.
Ao mesmo tempo, quero transformar em lei propostas que já apresentamos e que materializam esse modo de fazer política. Um exemplo é o Programa Estadual de Apoio às Mães Integrantes da Cultura Hip-Hop. É um projeto muito concreto, mas que reúne várias dimensões do nosso mandato: mulheres, cuidado, trabalho, cultura, juventude e direito à cidade.
Nosso compromisso para um próximo mandato é esse: continuar com um pé na Alerj e muitos pés nos territórios.
14. Pensando especificamente no Carnaval de rua, qual seria a principal medida que você defenderia na Alerj para garantir que a festa continue sendo uma manifestação popular, territorial e democrática?
Eu defenderia a construção de uma Política Estadual Permanente de Fortalecimento do Carnaval Popular e de Rua. E permanente é uma palavra importante, porque a gente não pode começar a discutir Carnaval em dezembro ou janeiro. O Carnaval envolve cultura, trabalho, renda, turismo, mobilidade, saúde, segurança, saneamento, meio ambiente e milhares de trabalhadores. Então ele precisa ser pensado durante o ano inteiro, com participação de quem efetivamente constrói essa festa.
Essa política precisa discutir financiamento descentralizado, garantindo que os recursos também cheguem aos pequenos blocos, às manifestações tradicionais, às favelas, às periferias, à Baixada e ao interior; infraestrutura pública; água gratuita e pontos de hidratação; atendimento de saúde; mobilidade e transporte; proteção aos trabalhadores; protocolos para ondas de calor e outros eventos climáticos extremos; além de uma política de segurança que garanta direitos sem criminalizar quem ocupa as ruas.
E tem uma conquista importante que nós precisamos garantir e proteger, que é o decreto estadual editado ainda no governo Pezão, que simplificou as exigências para os blocos populares de rua que não utilizam grandes estruturas. Isso é fundamental porque manifestação cultural popular não pode depender de uma burocracia tão grande que, na prática, só permita ocupar a cidade a quem tem dinheiro, patrocínio e estrutura empresarial. Segurança é necessária, evidentemente, mas ela não pode ser usada para restringir o direito de manifestação e de ocupação democrática do espaço público.
Ao mesmo tempo, o Carnaval também joga luz sobre problemas estruturais da cidade que não desaparecem na Quarta-Feira de Cinzas. E um deles é a falta de banheiros públicos.
Nós queremos defender uma política permanente de banheiros públicos. Porque uma cidade sem banheiro público é uma cidade desigual. Ela coloca a população refém dos interesses privados para realizar uma das necessidades mais básicas de qualquer ser humano. Obriga alguém a procurar um bar, um restaurante, um shopping ou outro estabelecimento e, muitas vezes, a consumir alguma coisa simplesmente para poder usar um banheiro.
E isso pesa ainda mais sobre quem passa o dia na rua: trabalhadores e trabalhadoras, ambulantes, entregadores, idosos, crianças, mulheres, pessoas com deficiência e pessoas em situação de rua.
O Carnaval pode ser um grande impulsionador dessa política. Em vez de pensarmos apenas em estruturas temporárias durante alguns dias de festa, podemos aproveitar esse investimento para discutir uma rede permanente de banheiros públicos, gratuitos, acessíveis, bem cuidados e distribuídos pelos diferentes territórios.
Então, para mim, defender o Carnaval popular significa juntar essas dimensões: ter um planejamento permanente construído com quem faz o Carnaval; proteger a liberdade dos blocos populares e impedir retrocessos burocráticos; garantir estrutura, água, mobilidade, saúde e segurança sem repressão; descentralizar recursos; e fazer com que os investimentos realizados para a festa também deixem direitos permanentes para a população.
Porque o Carnaval precisa continuar sendo popular, territorial e democrático. O maior patrimônio do Carnaval é o povo na rua. E direito à cidade não pode existir só durante a festa: a cidade precisa estar preparada para o povo todos os dias do ano.